A minha casa é o Templo das Horas
onde o tempo flui, sem pressa nem demoras.
E eu serei o fantasma que a assombra
e onde a tocha dá a luz eu sou a sombra.
E a voz do tempo fala sem qualquer sotaque,
e eu escuto e só oiço "tique taque, tique taque".
Como no respirar, passou por mim a inspiração
que quando se expira nos deixa sem vazão.
No intervalo seguinte fica-se com falta de ar
e o relógio bate, único som no lugar.
Privado de oxigénio, sobra escrever uma rima
que cai como uma uva que sobrou da vindima.
Como o sobrevivente de um destruído hemisfério,
como o morto que passeia à noite no cemitério.
Onde o único vinho e a brisa que perpassa
é a noção de a não haver e de estar vazia a taça.
Deixo a sede vã soar, envolto no ar bafio,
mas do novelo do silêncio apenas puxo mais um fio.
Como uma gata sem esperança que absorta
finge brincar para esquecer fechada a porta.
Deste Templo a única estátua de pedra é a arte,
do céu carregado de breu o ténue brilho de Marte.
Vã, fútil, inútil, mas ainda assim o estandarte
de um pelotão caído, de um coração que se parte.